Potencial de reúso de água na agricultura: estudo em municípios goianos destaca viabilidade e desafios
A crescente escassez hídrica, somada à elevada demanda da agricultura irrigada no estado de Goiás, tem impulsionado a busca por alternativas sustentáveis de gestão dos recursos hídricos. Nesse contexto, o reúso de efluentes sanitários tratados surge como uma solução viável, especialmente em regiões que enfrentam pressões sobre a disponibilidade de água.
Um estudo publicado na Revista DAE (v. 71, n. 242, 2023), intitulado “Potencial de reúso agrícola na UPGRH dos Afluentes Goianos do Baixo Paranaíba”, avaliou a viabilidade do reúso de água proveniente de Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) na irrigação agrícola em municípios do sudoeste goiano. A pesquisa foi desenvolvida por Maria Gabriela de Souza Damaceno e Karla Alcione da Silva Cruvinel, ambas da Universidade Federal de Goiás (UFG), e Ana Silvia Pereira Santos, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)【1】.
O estudo teve como objetivo analisar a compatibilidade entre a oferta de água de reúso, proveniente de esgotos sanitários tratados, e a demanda hídrica de áreas irrigáveis situadas no entorno das ETEs, considerando também critérios de qualidade sanitária e viabilidade econômica.
Importância do reúso agrícola na gestão hídrica regional
A Unidade de Planejamento e Gerenciamento de Recursos Hídricos (UPGRH) dos Afluentes Goianos do Baixo Paranaíba corresponde a cerca de 12% do território do estado de Goiás e apresenta uso predominante do solo para atividades agropecuárias. A análise demonstrou que, apesar de boa parte da região apresentar baixa pressão hídrica, municípios como Jataí, Chapadão do Céu e Quirinópolis enfrentam níveis críticos de escassez, especialmente durante os meses de maior evapotranspiração.
A utilização de efluentes tratados para irrigação de culturas como pastagem, cana-de-açúcar e soja mostrou-se viável em diversas localidades. Em Jataí, por exemplo, a oferta de água tratada pela ETE local seria suficiente para atender toda a demanda de irrigação de áreas de pastagem no raio de 1 km. Situação semelhante foi observada nos municípios de Caçu, Paranaiguara e Quirinópolis, em que parte ou totalidade da demanda hídrica agrícola também pôde ser suprida pelo reúso【1】.
Avaliação quantitativa e qualitativa
A tabela abaixo, extraída da publicação, apresenta a oferta de água tratada disponível para reúso nas ETEs estudadas:
Tabela – Vazão de água tratada disponível por município (L/s)
Fonte: Adaptado de DAMACENO et al. (2023)

Embora a quantidade de água disponível seja relevante, a qualidade do efluente ainda representa um entrave. A pesquisa utilizou como referência os critérios técnicos do documento INTERÁGUAS (2017), que, apesar de não possuir força normativa, é atualmente o principal guia federal para projetos de reúso de água. A maioria das ETEs avaliadas apresentou eficiência de remoção de Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO), sólidos suspensos e E. coli abaixo do exigido para reúso agrícola restrito, o que indica a necessidade de melhorias nos processos de tratamento【1】.
Viabilidade econômica: entraves à implementação
Do ponto de vista econômico, o estudo demonstrou que o transporte da água tratada por caminhão-pipa encarece significativamente a prática do reúso. Em simulação, o custo por metro cúbico do transporte (para distâncias de 1 a 5 km) variou entre R$ 0,32 a R$ 1,62, enquanto a cobrança pública pelo uso da água para irrigação na Bacia do Rio Paranaíba é de apenas R$ 0,0045/m³, valor muito inferior. Tal disparidade compromete a atratividade econômica da prática do reúso e evidencia a necessidade de reestruturação dos instrumentos de gestão hídrica no Brasil, como a política de cobrança pelo uso da água【1】.
Considerações finais para a engenharia e a política ambiental
A adoção do reúso agrícola como estratégia de gestão hídrica pode reduzir a captação de água de mananciais, aumentar a segurança hídrica e contribuir para a preservação ambiental, especialmente em regiões com forte demanda agrícola. No entanto, para que essa alternativa se torne efetiva, é essencial:
- Melhorar a qualidade do tratamento nas ETEs existentes;
- Garantir o monitoramento contínuo dos parâmetros sanitários;
- Desenvolver políticas públicas de incentivo econômico ao reúso;
- Adotar uma abordagem regulatória baseada na avaliação de risco microbiológico.
Estudos como o de Damaceno et al. (2023) são fundamentais para orientar o planejamento territorial e o desenvolvimento de soluções sustentáveis para o reúso de água na agricultura, em especial em regiões estratégicas para a produção de alimentos, como o sudoeste de Goiás.
Referência completa segundo a ABNT NBR 6023:2018:
DAMACENO, Maria Gabriela de Souza; CRUVINEL, Karla Alcione da Silva; SANTOS, Ana Silvia Pereira. Potencial de reúso agrícola na UPGRH dos Afluentes Goianos do Baixo Paranaíba. Revista DAE, São Paulo, v. 71, n. 242, p. 146–161, out./dez. 2023. DOI: https://doi.org/10.36659/dae.2023.061.
