Escassez hídrica e o período seco em Goiás: desafios e soluções sustentáveis

Goiás, localizado no centro do Brasil, apresenta um regime climático típico do cerrado, com duas estações bem definidas: uma chuvosa, entre novembro e abril, e outra seca, entre maio e outubro. Durante a estiagem, especialmente entre os meses de julho e setembro, a precipitação se torna escassa ou inexistente, reduzindo drasticamente a vazão dos rios, a recarga de aquíferos e a disponibilidade de água superficial. Este cenário intensifica os riscos de escassez hídrica em áreas urbanas e rurais, comprometendo o abastecimento humano, a irrigação e os usos industriais.
De acordo com o Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil (ANA, 2024), o estado de Goiás encontra-se entre as regiões com maior pressão sobre os recursos hídricos durante a seca, devido à concentração da demanda no setor agrícola e ao crescimento urbano acelerado. Em regiões como o sudoeste goiano, a irrigação de culturas como soja, milho, pastagens e cana-de-açúcar intensifica a competição pelo uso da água com o abastecimento público.


Essa realidade demanda soluções integradas de gestão, sendo o reúso planejado da água uma das alternativas mais promissoras. O reúso agrícola de águas residuárias tratadas permite a conservação dos mananciais naturais, o aumento da resiliência hídrica dos sistemas produtivos e a redução da carga poluente lançada em corpos d’água. Para ser seguro, no entanto, esse reúso deve estar associado a avaliações técnicas e sanitárias rigorosas. Estudos recentes, como o de Damaceno et al. (2022), demonstram que o reúso agrícola é viável e apresenta risco aceitável à saúde pública, desde que ocorra com a adoção de barreiras sanitárias adequadas, como desinfecção, reservatórios para decaimento bacteriano, uso de EPIs e controle da aplicação no campo. Essa abordagem reforça a importância do planejamento baseado no risco (“fit-for-purpose”), defendido por normas internacionais como a ISO 16075-1:2015.


Além disso, medidas como a captação e o armazenamento de água da chuva, a modernização de sistemas de irrigação (gotejamento, aspersão controlada), o combate às perdas nas redes de distribuição e a educação ambiental são fundamentais para a adaptação dos municípios goianos à escassez hídrica sazonal.
A gestão da água em Goiás também deve considerar os efeitos das mudanças climáticas, que podem tornar os períodos de seca mais intensos e prolongados. A resiliência dos sistemas dependerá da capacidade de antecipar eventos críticos, integrar os instrumentos de planejamento hídrico (como os planos de bacias) e incentivar o uso racional da água em todos os setores.
Portanto, a época seca não deve ser apenas um momento de crise, mas uma oportunidade para repensar os modelos de uso da água e adotar estratégias sustentáveis de convivência com a variabilidade climática.

Referências:

AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO. Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil. 2. ed. Brasília: ANA, 2024.
DAMACENO, M. G. de S. et al. Semiquantitative microbiological risk assessment for water reuse in agriculture: a case study in Brazil. Water Supply, v. 22, n. 9, p. 7375–7385, 2022.