Avaliação de risco microbiológico no reúso agrícola de água: estudo de caso em Goiás

Baseado no artigo de Maria Gabriela de Souza Damaceno et al. (2022)

O estudo realizado por Maria Gabriela de Souza Damaceno e colaboradoras apresenta uma avaliação semiquantitativa do risco microbiológico associado ao reúso de águas residuárias tratadas para fins agrícolas. A pesquisa foi conduzida em quatro cidades do sudoeste de Goiás — Aparecida do Rio Doce, Caçu, Lagoa Santa e Quirinópolis —, todas com Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) em funcionamento. O objetivo principal foi analisar a segurança sanitária do reúso da água tratada na irrigação de pastagens e cana-de-açúcar, duas culturas predominantes na região.

A metodologia adotada seguiu a norma internacional ISO 16075-1:2015 e o modelo proposto por Rebelo et al. (2020), utilizando como indicador microbiológico a densidade de Escherichia coli nas águas tratadas. A coleta de dados foi realizada em parceria com a SANEAGO, e a densidade média anual de E. coli chegou a valores superiores a 10⁶ UFC/100 mL em alguns sistemas. Esse resultado está acima dos limites recomendados tanto pela OMS quanto pelas diretrizes brasileiras para reúso restrito, que estabelecem valores entre 10³ e 10⁴ UFC/100 mL.

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A análise de risco contemplou quatro grupos expostos: agricultores, transportadores de água, comunidade local e trabalhadores da indústria de cana-de-açúcar. Foram consideradas três principais vias de exposição: ingestão (intencional e acidental), inalação e contato dérmico. Os resultados mostraram que os agricultores são os mais vulneráveis devido ao maior tempo e intensidade de exposição. Mesmo assim, o risco estimado para todos os grupos foi classificado como aceitável, ainda que próximo ao limite superior dessa faixa.

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O estudo também indicou que, com o fortalecimento das barreiras de segurança — como uso de EPIs, treinamento, armazenamento intermediário e sistemas adicionais de desinfecção —, o risco pode ser reduzido a um nível considerado desprezível. Isso ressalta a importância de intervenções de gestão na proteção da saúde pública, mesmo quando os parâmetros microbiológicos estão acima dos recomendados.

O artigo conclui que, embora o reúso agrícola de águas residuárias seja viável e ambientalmente desejável, sua implementação deve estar baseada em avaliações de risco locais. A adoção de padrões orientados pela finalidade do uso (fit-for-purpose), conforme previsto na ISO 16075-1:2015, mostra-se mais adequada à realidade brasileira do que limites fixos padronizados. O estudo reforça o papel da ciência na formulação de políticas públicas para o reúso seguro da água na agricultura, especialmente em contextos de escassez hídrica.

Referência
DAMACENO, M. G. de S. et al. Semiquantitative microbiological risk assessment for water reuse in agriculture: a case study in Brazil. Water Supply, v. 22, n. 9, p. 7375–7385, 2022. DOI: 10.2166/ws.2022.285.